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Meio Ambiente
por Isaac Rodrigues
dos Santos (Oceanógrafo) & Ana Cláudia Friedrich (Mestre em Engenharia
Oceânica), membros da comissão científica de “Praia Local, Lixo
Global”; & Fabiano Prado Barretto, gerente de projetos e idealizador
de “Praia Local, Lixo Global”.
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A destruição do mares e oceanos através do lixo
Atualmente, o lixo deixou de ser apenas um problema sanitário em zonas
urbanas e tornou-se um dos principais grupos de poluentes em
ecossistemas marinhos, inclusive em áreas não urbanizadas. Juntamente
com outros grupos de poluentes, como petróleo, metais pesados e
nutrientes, o lixo tem ameaçado a saúde do ambiente marinho de
diversas maneiras.

Lixo jogado a céu aberto
Os impactos ambientais mais evidentes estão relacionados à morte de
animais. Esse problema tem sido considerado tão grave, que já existem
registros de ingestão ou enredamento em lixo para a maioria das
espécies existentes de mamíferos, aves e tartarugas marinhas.
Muitos animais confundem
resíduos plásticos com seu alimento natural. Sua ingestão pode causar
o bloqueio do trato digestivo e/ou sensação de inanição, matando ou
causando sérios problemas à sobrevivência do animal. O enredamento em
materiais sintéticos, como resíduos de pesca, também é muito perigoso.
Isso tem afetado especialmente populações de animais com hábitos
curiosos, como focas e gaivotas, seja no Havaí ou em ilhas
sub-antárticas.
Em estudos realizados sobre a quantidade e composição de resíduos
flutuantes, em praias, e/ou depositados no leito marinho, os plásticos
são os mais freqüentes. Fatores como seu elevado tempo de
decomposição, sua abundante utilização pela sociedade moderna e
ineficácia ou inexistência de programas de gerenciamento de resíduos
sólidos explicam essa constatação.
Um tipo de plástico
pouco conhecido são as esférulas plásticas, nibs ou pellets. Os nibs
possuem poucos milímetros de diâmetro e são matéria prima para a
fabricação de produtos plásticos, sendo perdidos em grande quantidade
durante seu manuseio e transporte. Na Nova Zelândia, por exemplo,
foram verificados depósitos com mais de 100.000 esférulas por metro
linear de praia.
No Brasil, os nibs já
foram observados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro
e Bahia, mas provavelmente ocorrem em todo litoral. Apesar do pequeno
tamanho, os nibs causam grande preocupação, visto que inúmeras
espécies de aves têm ingerido esse tipo de material e, além do dano
físico, os nibs podem ser vetores de poluentes químicos, como
agrotóxicos, aderidos em sua superfície externa.
O lixo depositado nas praias brasileiras pode ter sido deixado pelos
banhistas, transportado pelos rios que cruzam zonas urbanas ou trazido
pelas correntes marinhas. Juntos, os ventos alísios (de nordeste) e o
padrão de circulação superficial do oceano Atlântico Sul favorecem o
transporte dos resíduos flutuantes jogados no mar pelos navios para as
praias brasileiras.
Uma breve caminhada
pelas praias da Costa dos Coqueiros, no litoral norte da Bahia, pode
mostrar algumas surpresas, como acúmulo na areia do lixo jogado no mar
por navios estrangeiros. Foi isso que aconteceu no verão de 2001 numa
caminhada de 10,3 km entre as praias do Forte e Imbassaí, motivando a
criação da Ação “Praia Local, Lixo Global” (www.globalgarbage.org) com
objetivo de monitorar o problema e buscar soluções.
Na Costa dos Coqueiros, os impactos do lixo à vida marinha são
agravados por se tratar de área de reprodução de tartarugas marinhas,
com intensas atividades do Projeto TAMAR. Isso significa que além dos
obstáculos naturais, as tartarugas precisam superar o lixo flutuante e
aquele depositado na praia para garantir sua sobrevivência.
Além dos danos à vida marinha, o lixo no litoral da Bahia entra em
conflito com uma das principais atividades econômicas da região: o
turismo. As pesquisas realizadas no Brasil e em outros países mostram
que o lixo nas praias também pode causar ferimentos nos banhistas,
diminuição das atividades turísticas e danos a embarcações.
Por exemplo, na África
do Sul, o prejuízo causado pelo lixo ao turismo é da ordem de milhões
de dólares; no litoral sul do Brasil foi observado que cerca de 20%
dos banhistas já sofreram algum tipo de ferimento associado a lixo em
praia; enquanto em algumas regiões dos Estados Unidos o entupimento da
entrada de água para a refrigeração do motor com plásticos é a
principal causa de danos a embarcações.
O monitoramento da chegada do lixo internacional em cerca de 70 km de
praias praticamente desabitadas no litoral norte da Bahia a partir de
2001 registrou embalagens de mais de 60 países. Estados Unidos, Itália
e África do Sul são os países com maior número de embalagens. O
plástico é o material mais freqüente, seguido por metais. Isso aumenta
ainda mais a gravidade do problema, considerando o elevado tempo de
decomposição destes materiais. Atualmente o monitoramento é realizado
em um trecho de 141,5 km entre Mangue Seco e Praia do Forte. A
intenção é expandir as atividades para o maior número de localidades
possíveis.
Outro poluente pouco conhecido que tem sido monitorado são os
sinalizadores (lightsticks) utilizados na pesca de espinhel ou por
mergulhadores. Esses sinalizadores são uma embalagem de plástico
contento líquido oleoso que produz luminosidade por aproximadamente 12
horas. Perdidos ou jogados no mar, os sinalizadores também se acumulam
nas praias. Eles têm sido utilizados inconseqüentemente pela população
local para acender fogo, como chaveiros, lubrificantes e até mesmo
como bronzeadores, óleo para massagens contra dores musculares e para
curar micoses, vitiligo e reumatismo! Apesar dos fabricantes afirmarem
que seu produto não é tóxico no caso de contato acidental com a pele,
o resultado do seu uso sistêmico e contínuo é desconhecido em longo
prazo, podendo se tornar um problema de saúde pública se não for
devidamente investigado e avaliado.
A solução dos problemas aqui descritos passa essencialmente pelo
conhecimento científico das origens e impactos dos poluentes em
ambiente marinho, afinal apenas problemas devidamente conhecidos podem
ser gerenciados. Atualmente a Ação “Praia Local, Lixo Global” conta
com três programas em ação. O programa “ID Garbage” busca a
identificação das origens do lixo encontrado nas praias da Costa dos
Coqueiros, intimamente associado ao programa “Amigos do Lixo”, que
reúne pessoas de todo mundo interessadas em recolher e catalogar o
lixo encontrado nas caminhadas na Costa dos Coqueiros. Já o programa
“Onda Verde” é uma iniciativa que tem o apoio de atletas e surfistas
como Wilson Nora e Armando Daltro, buscando a difusão das idéias de
“Praia Local, Lixo Global” no mundo do Surf.
A expansão do trabalho e a busca pela diminuição da poluição marinha
por resíduos sólidos dependem muito de novas articulações. Nesse
sentido está sendo realizada uma associação com a expedição Aventura
no Brasil Costal (www.aventuranobrasilcostal.com.br), programa
idealizado pelo jornalista científico Luiz Peazê, que tem o objetivo
de difundir assuntos ligados à gestão costeira e educação ambiental
através expedição em cruzeiro à vela ao longo da costa brasileira, de
sul a norte e de norte a sul, intermitente por no mínimo cinco anos.
Os objetivos e ideais convergentes de ambos projetos apontam para uma
excelente parceria. Assim, a metodologia e ações de “Praia Local, Lixo
Global” poderão ser difundidas em praias de todo Brasil.
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